Os primeiros cronistas europeus - Hans Staden , André Thévet , Ulrico Shmidel , Jean de Léry - ao descrever o Brasil relatam a habilidade dos índios nadando e mergulhando na água.
Nos sambaquis - amontoados pré-históricos de conchas de moluscos, hoje considerados prováveis monumentos funerários - foram encontrados numerosos crânios apresentando uma deformação, chamada de exostose auricular, ou ‘surfers ear', causada por exposição continuada à água fria.
Boa parte destas habilidades foram sendo perdidas a medida que os colonizadores afastavam os índios do mar.
Com o término da II Guerra Mundial, pilotos brasileiros da PANAIR, que voavam para Roma, descobrem o mergulho recreativo e trazem os primeiros equipamentos para o Brasil. Mergulhar, em 1947, significava praticar caça submarina e a ela que se dedicavam Paulo Lefèvre, Eduardo de Oliveira (pilotos), Chico Britto, João José Bracony . Estes foram alguns dos pioneiros, divididos entre o Iate Clube do Rio de Janeiro e o Clube dos Marimbás. Em seguida vieram João e Arnaldo Borges, Bob Solberg, Antar Padilha, Oscar Sjoestd…
Quando o mergulho se democratizou e se espalhou para além dos clubes outro ponto de irradiação foram a praia do Arpoador e suas pedras. É criada a Associação Brasileira de Caça Submarina que, a partir de '51, organiza os primeiros campeonatos, disputados em Angra dos Reis.
O francês Marcel Isy-Schwartz publica em '53 Chasse aux fauves de la mer. Nele conta sua iniciação na caça submarina e o que vivenciou em viagens pelo mundo. Um dos capítulos sobre sua estada no Brasil, é intitulado " Rio, a capital mundial da caça submarina ". Mas o que ele se propunha era realizar um documentário. Para ter mais possibilidades de encontrar água clara se hospedou em Cabo Frio na casa - que já era à base de um grupo de mergulhadores - de Álvaro Varanda. O filme, que também ambientava sequências no Rio e em Angra, mostrava, em paisagens deslumbrantes, a captura de peixões desconhecidos pelos europeus, que ficaram invejando a piscosidade do nosso mar.
Para dominar os grandes peixes que se pescavam na época Jim Connel, americano, piloto da PANAM, radicado no Rio, desenvolveu a "coca-cola" poderosa arma movida a CO2 que lançava um arpão de I,40m de comprimento e 9mm de diâmetro, ligado por um cabo de aço e um cabo grosso de tucum a uma bóia também de aço. Levado por Victório Berredo , a partir de 1956 o Dr. Roberto Marinho - o jornalista/em- presário que construirá um império à frente das Organizações Globo - passou a se dedicar com regularidade à pesca de mergulho.
O Globo, em 1958, patrocinou a participação de uma equipe brasileira no II Campeonato Mundial de Pesca Subaquática, em Sesimbra, Portugal. O terceiro lugar por nações, obtido graças as exelentes colocações de Bruno Hermanny e Abel Gázio , deram projeção ao esporte no Brasil e o contato com atletas de outras nações propiciou um salto qualitativo no equipamento e técnicas adotados pelos nossos.
Para nós a consequência mais notável foi à adoção generalizada da roupa de neoprene, necessária na água fria de Portugal, quando perceberam e depois divulgaram, o quanto seria útil por aqui.
1959 começou com a Copa do Atlântico, promovida pelo O GLOBO e disputada em Angra dos Reis, com a participação de equipes da França, Itália, Portugal e três do Brasil. A previsível vitória brasileira teve bastante repercussão nos jornais locais e nas revistas especializadas estrangeiras.
Um dos primeiros a possuir e utilizar um escafandro autônomo e uma caixa estanque para Rolleiflex, a mítica Rolleimarin, Emérico Samassa Mayer publica em 1957 o livro " Trindade: ilha misteriosa dos trópicos ". Nele recomenda a retirada das cabras, ali deixadas no passado para alimentar possíveis náufragos, que estavam devorando a cobertura vegetal da ilha, causando sua erosão pelas chuvas.
Outro pioneiro na foto subaquática foi Luiz Fausto , que publicou diversos números de uma revista sobre mergulho chamada Anequim . Nela se destacavam fotos submarinas conseguidas numa expedição, apoiada pela Marinha, à ilha Trindade. O francês Jean Manzon , conhecido reporter fotográfico, que se tornaria importante documentarista, e que já fazia parte do grupo de mergulhadores do Iate Clube, opera uma Rolleimarin para O Cruzeiro . Mais tarde Henri Ballot , também francês, passou a utilizar a Rolleimarin e foi o autor das fotos de Werner Klauss, mergulhando para salvatagem no Principe das Astúrias , publicadas pela revista.
Outro pioneiro, este paulista, foi Luis Pini que fez tomadas submarinas em 16mm de Noronha e Rocas.
Ainda em '59, capitaneada por Vitório Berredo, uma equipe brasileira participa do Mundial em Malta classificando-se em quarto lugar por nações, novamente graças à boa classificação individual de Bruno.
Logo após o campeonato os representantes das várias federações lançaram as bases para a reunião em Mônaco que resultaria na criação da CMAS (Confederação Mundial das Atividades Subaquáticas), sob a presidência do Comandante Jacques Yves Cousteau .
Até então os poucos trabalhos subaquáticos realizados no Brasil ficavam a cargo de mergulhadores equipados com o escafandro pesado. Em '59 Luis Fausto e Amorim constituiram a EBOS , Empresa Brasileira de Operações Subaquáticas . Sua primeira obra foi em Imbituba, SC e para executa-la contrataram Paulo Miller e Arduino . Foi a primeira a ser realizada no Brasil por mergulhadores equipados com máscara, nadadeiras e roupa de neoprene. Meses depois Raul Cerqueira, também para a EBOS, inspecionava dutos da Petrobrás na baia da Guanabara.
Em '60 Bruno Hermanny se sagra campeão mundial em Ústica, Itália. A pescaria no Mediterrâneo é muito funda e especializada, a vitória de um sul americano foi um feito notável que veio para confirmar suas boas classificações em campeonatos anteriores.
Ainda em 1960, no Rio de Janeiro, Americo Santarelli , com um mergulho aos 42m, bate por um metro o recorde mundial de profundidade. Semanas depois melhora sua marca descendo aos 43 metros na ilha Circeo, na Itália. O recorde dura pouco, dias depois é batido em um metro pelo italiano Enzo Majorca .
Logo em seguida, ainda em '60, em Santa Margherita Ligure , na Itália, Santarelli reconquista o recorde com um mergulho aos 46m. A seguir abandona os recordes e passa a se dedicar à caça submarina de competição onde, depois de um tempo de adaptação, passa a colher importantes vitórias.
Como empresário criou a Cobra-sub , que se tornou a maior fabricante brasileira de equipamentos de mergulho. Com a Cobra Náutica ampliou sua atuação empresarial fabricando lanchas de alta qualidade, muito bem aceitas e valorizadas no mercado.
Em 1963 o Campeonato Mundial foi realizado no Rio de Janeiro. Como nação o Brasil se classificou em segundo lugar - mas Bruno ganhou o título individual. Foi o primeiro atleta a conseguir dois títulos mundiais e com isso ajudou a confirmar o Brasil numa posição de destaque no cenário do mergulho de competição.
Dado o interesse que desperta, vários jornais passam a manter colunas semanais sobre mergulho, que nesta época era quase sinônimo de caça submarina, Yllen Kerr no JB , Victor Wellish em O Globo , Carlos Tavares no Jornal dos Esportes , Arduino Colasanti em O Jornal .
Com Santarelli , Bruno passou a ministrar aulas de pesca de mergulho no ICRJ, depois em sua loja, Aquacenter , onde também ensinava mergulho autônomo.
Na Urca João Carlos Pompeu Silva , o “ Tatalo” , iniciava o que se tornaria a Atlântico Sub , escola até hoje atuante no Rio.
Na revista O Cruzeiro , de 05/ 07/ 72 , é descrito o primeiro mergulho offshore utilizando heliox Apoiados pelo Gulf Sea Horse os mergulhadores da Subaquática Engenharia desceram para fornecer elementos de geologia à Petrobrás. Com tempo de fundo de 20' iniciaram uma lenta subida que terminaria na superfície, com uma descompressão em câmera, respirando oxigênio a partir dos 18m, seguindo a tabela da US Navy para esta modalidade de descompressão.
Pouco antes no mesmo ano, durante a construção da ponte Rio-Niterói, os mergulhos no ar haviam chegado aos 80m. Muitos eram perdidos devido à narcose. Amostras não eram colhidas, não se conseguia medir a ovalização do tubulão. Foi necessário recorrer ao hélio. A Subaquática contratou o técnico norte americano Hurs Floyd e fez vários mergulhos com heliox na baia de Guanabara antes do mergulho na bacia de Campos.
Nos anos '70 Claudio Guardabassi , várias vezes campeão paulista de caça sub, abre a Claumar e vende equipamento de mergulho, mais tarde fabrica roupas de neoprene e em '81 se forma instrutor pela YMCA , a primeira entidade a emitir uma C-card nos Estados Unidos.
O mergulhador comercial italiano Sergio Costa em '79 monta no Rio a escola YG-centro de atividades subaquáticas . Em '82 edita a revista Mergulhar , que, promove o primeiro concurso de foto subaquáticas , um marco importante na evolução do mergulho brasileiro.
Com o sistema de saturação instalado no Diving Support Vessel STENA MARIANOS foi realizado em fevereiro de '90 no campo Albacora o mergulho que é, até hoje, o mais fundo efetuado numa operação real de trabalho. Um DSV é mantido sobre o local de trabalho por um sistema de posicionamento dinâmico no qual um computador controla trusters multidirecionais, baseado em dados obtidos pelo conjunto de satélites GPS.
O trabalho, realizado por Adelson D'Araujo Santos Jr. para a STENA MARÍTIMA, deveria ter sido aos 316m, mas o paraquedas (lift-bag) de 5.000kg empregado na manobra, mal fixado na hora de ser descido, soltou-se e foi parar numa depressão 12m mais embaixo. Teve que ser arrastado ladeira acima no braço. Nesta profundidade é um feito que merece ser lembrado.
Por Arduíno Colassanti
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